O Astronauta

Motivação é uma boa lufada de ar fresco – mas não basta. 
Um dia estás entusiasmado com a possibilidade de visitares outros planetas e desfolhas um atlas; outro dia estás mais confortável no sofá a ver uma comédia tentando enganar o coração. Nada de mal. 

Mas, se pensares bem, amanhã enganas o coração com outra coisa. Vodka. Mais uma vez, nada de mal. Outro dia, comparas fotografias online – para mediares o teu estado de espírito (conforme os likes obtidos). Outro dia, compras um carro novo – só para alimentar o ego. E assim por diante…

Nada de mal. Todos os dias atracas um prazer, digamos assim, ao teu coração. Mas será verdadeiro – esse prazer? Tempos depois, sentes-te meio vazio. Os teus sonhos? Sentes-te frustado porque deixaste sonhos para trás. O teu Objectivo Primeiro.E sentas-te no sofá, para mais uma comédia, para espairecer. 

Criaste o hábito de enganar o coração. De sobrepor com prazer imediato os teus sonhos; sonhos que levariam demasiado tempo para serem conquistados. 

Porque és impaciente e desistes. 

Os teus sonhos? Ficaram na prateleira com os atlas cheios de pó. Os teus sonhos? Não morreram. São hoje a tristeza misturada nas comédias. A vodka misturada com a frustração. Os olhares e as opiniões dos outros, os julgamentos que não são os teus, que não são quem és. Que importa isso agora? Que valor terão esses Julgamentos para a tua essência? Estás vazio.

Eu sempre gostei do universo, dizes. Mas sempre te sentiste pequeno, incapaz, triste. O que te vale são as comédias! Pensas. O que me vale são as comédias! 

E vives neste ciclo de pensamento constante. Mas pensa. 

E porque nunca tentaste ser astronauta? O que te puxa para o sofá? Deixa-me dizer-te a resposta: a tua filosofia, a linha pequenina que atravessa a tua cabeça e regula o que vais fazer, e regula o destino, o destino para onde vais. 

– O que vais fazer? O que vais fazer?

Precisas de bons hábitos. Não todos os hábitos do mundo, mas os mais favoráveis. Ler sobre foguetões, inventar asas que te levem às alturas. E de manhã, agradecer pelo que te foi dado: amor, martelos, livros, etc. Pelo que já alcançaste: alavancas-objectos e alavancas para o pensamento. 

Repete os hábitos, todos os dias, até que sejam automáticos e parte das tuas ideologias e/ou filosofia intrínseca na tua cabeça. Algo que se tornou natural e que cria a (tal) motivação para desenvolver mais alavancas, foguetões, asas pra chegar ao céu. 

Foca-te nos planetas. Afinal, queres ser astronauta, não queres?

E é assim, na coragem de tomar esse sonho, que vais vencer. Esse será o teu sucesso. Hábito após hábito, 1% após 1%. É uma questão de matemática. 

Mas, devo dizer, a mesma teoria se aplica para desenvolver um coração mais tranquilo e regulado com a sua condição humana. 

Somos todos astronautas e filósofos, se olharmos bem dentro do nosso corpo. Todos temos as ferramentas. Todos temos o universo à nossa disponibilidade. Agora a questão é:

– O que vais fazer?

Os Ruídos.

Muitas vezes, fico a escutar os pensamentos barulhentos dentro da minha cabeça. Escolho um: o mais optimista. Quase sempre, uma emoção boa se liberta, automaticamente. Pode ser por consequência, ou talvez, será mesmo assim a natureza humana – o que equivale à mesma coisa.

Mas optei por esta filosofia, quase uma técnica, para atingir um sorriso expontâneo, ou encarcerar na medula do inconsciente uma força que me leva e levará sempre neste caminho.

Outras vezes, bem que os pensamentos lá ficam (bons ou maus, digamos assim). Eu separo-me do diálogo interior e fico sentado, espectador, sem pensar e sem sentir. Estou atrás de todo esse festival emocional e de outras histórias (normalmente irreais) que todos nós vamos contando à nossa pessoa.

Perco a identidade e a conexão entre o que sou e o que sinto e penso. Tudo isso são manifestações da minha natureza, ou consequências, ou melodias e nuvens que passam. Mas nunca, nunca são, nem serão, Eu no sentido Eu-puro. São coisas diferentes. São emoções e pensamentos que posso largar ao vento. Ou que, se ferramentas úteis para o meu desenvolvimento, posso guardar no espírito e criar qualquer coisa – um bocado de prosa, por exemplo. Ou criar ainda, com isso, um plano para visitar um amigo que já não vejo à muito tempo. Ou ainda mais, se quisermos ser rigorosos : criar, com isso, uma expansão interior e subir uma montanha para abraçar o sol. Seja isso metáfora, ou seja isso o que realmente é concreto nesta vida.
Mas, no fundo, não passam de ruídos. Sons, emoções, pensamentos, nuvens, névoas, neblinas, forças em espiral dentro do espírito e da cabeça – ruídos que não definem quem sou. Ruídos no ar. Ruídos que opto por aproveitar, ou não.

Mas não se pode dizer que, ao sentir alegria ou angústia ou outras coisas do género, eu – como pessoa livre e com a cabeça no lugar – não se pode dizer – eu sou triste – ou – eu sou alegre. Não. Eu tenho emoções gravitando dentro de mim. Eu estou no topo da montanha, e as emoções gravitam na aragem. È esquisito. Eu estou triste ou estou alegre – emoções úteis nas suas circunstâncias- eu trago tristeza ou alegria ou saudade dentro de mim – mas eu, Eu-puro – eu sou outra coisa.

Por isso, quantas vezes não virei as costas a todo esse fenómeno.  Quantas vezes, consciente e presente no mundo, nesse exacto momento, avistando as minhas prioridades e os meus sonhos lá á frente-quantas  vezes não virei costas a todo esse fenómeno. Como se algo me puxasse. De tal maneira, que passo a ignorar, nessa altura, todos os meus estados de humor e todas as sensibilidades e os pensamentos mesquinhos do ego – focado nos meus princípios e objectivos – subindo a montanha, subindo a montanha, cada vez mais alto, cada vez mais longe.

É sempre nesses momentos – exactos e puros -que recomeço a minha caminhada, em direcção ao futuro. Em direção ao sol. Como se, finalmente, fosse honesto comigo mesmo e estivesse em liberdade.

Luminoso e em silêncio.

 

Ivo Brooks, 2017